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Duas mensagens verdes

cat /dev/random - 5 dezembro, 2009 - 14:14

Post quase-resposta ao post do Léo, meu amigão aqui na Friolândia, sobre ser "verde".

Falar sobre aquecimento global já está virando lugar comum aqui pra estes lados. Não sei quão grande é o movimento no Brasil (fica fácil ter visões distorcidas quando se frequenta o lugar errado na internet), mas imagino que o assunto apenas está começando a ganhar força.

Digo isso porque outro dia, acho que anteontem, resolvi assistir a algumas palestras do TEDx de São Paulo [1]. As duas às quais assisti falavam principalmente sobre aquecimento global. Meu namorado finlandês, ao final, disse: "é, pra gente, nada de novo...". Foi assim mesmo que eu me senti ao final, meio decepcionada, apesar de as palestras serem super interessantes. Decepcionada porque eu já sabia daquilo tudo. Não trouxe aquele sentimento de "a-há! É verdade!" que as outras palestras do TED haviam causado em mim. Mas depois pensei que é sinal de que as discussões que já estão rolando aqui fora só agora estão chegando por lá com mais força.

Enfim, se tiverem um tempinho sobrando, assistam à palestra do Paulo Saldiva. Fala sobre exclusão e racismo ambiental. O ponto da palestra é: classes altas estão destruindo, mas quem vai sofrer de verdade é quem não tem dinheiro. Isso é racismo e exclusão, e não há justificativa moral de que nossos hábitos acabem com a vida de quem não teve nada a ver com isso. Vale a pena ver a palestra, mesmo para quem já está mais informado sobre o assunto do aquecimento global. Para quem não está, mais ainda :)

Aproveitando o espaço, gostaria de fazer também a divulgação de um esforço super legal que está rolando por iniciativa da WWF. É a campanha "Vote pelo Planeta". Apesar de ter a palavra "vote", não acho que seja exatamente uma eleição, pois você clica ou não clica. Acho que o que eles quiseram dizer é que o não-clique é o voto pelo aquecimento global, e o clique é o voto pela saúde do planeta. Se for isso mesmo, os brasileiros estão mais pro lado do aquecimento global. Até o momento que escrevo este post, no Brasil, apenas pouco mais de 1600 pessoas haviam manifestado seu voto. Pense em quantos brasileiros somos, com acesso à internet... Tá muito pouco!

O "resultado" dessas eleições será levado para os líderes mundiais que se reúnem em Copenhague, mostrando que a população mundial quer um acordo global que faça diferença de verdade, e não essa merrequinha de reduções que eles estão negociando agora.

--
[1] Se você nunca assistiu às palestras do TED (Technology Entertainment Design), corre lá AGORA e delicie-se! São palestras maravilhosas disponíveis gratuitamente pra quem quiser ver, sobre diversos temas. São, para citar o slogan do projeto, ideias que valem a pena espalhar.

Categorias: Blogs

Intolerância na internet brasileira

cat /dev/random - 30 novembro, 2009 - 16:11

Tenho me assustado muito com a (baixa) qualidade das discussões em alguns blogs que tenho lido eventualmente e nos espaços de comentários de notícias no Correio Braziliense. Não tem uma notícia que leio que não venha acompanhada de comentários intolerantes e assustadoramente vazios. Pergunto-me se esse é um bom retrato da sociedade brasileira como está agora, ou se apenas reflete a opinião e a maneira de se expressar de uma barulhenta minoria. Também me pergunto se sempre foi assim, mas eu estava imersa demais na cultura para perceber, ou se está ficando cada vez pior.

Sou uma pessoa bem flexível. Considero uma de minhas melhores qualidades a capacidade de ouvir, pensar, discutir ideias e, se for o caso, mudar minhas opiniões. Gosto de pensar que é uma evolução. Não quero me fechar em meu mundo e barrar outras maneiras de ver as coisas. Por isso, estou sempre aberta ao debate. Não vou negar que às vezes, em discussões mais acaloradas, chego a ficar irritada, mas evito ao máximo levar para o lado pessoal. Posso não concordar com a outra pessoa, mas nunca vou sair xingando. E tenho tentado me policiar para nunca sair pensando nada do tipo "ah, não tem jeito, essa pessoa é idiota mesmo". Nem falar, nem pensar. É difícil, mas indispensável para uma pessoa que se julga cabeça-aberta.

Sendo assim, tenho ficado muito triste ao ver comentários em jornal como o abaixo, em resposta a um comentário que fiz sobre a história do estacionamento pago do ParkShopping em Brasília. Eu falei:

Desculpem-me, mas interesse da população é ter estacionamento grátis? E a história de que carro demais é ruim pra todo mundo? Estacionamento de shopping tem que ser pago mesmo, para desestimular o uso do carro e estimular uso de outros meios de transporte. Defender o interesse da população, no caso, é melhorar o transporte público, garantir a segurança de ciclistas… E não garantir que quem é rico o suficiente para ter carro vai ter onde estacionar de graça. Eu hein…

E recebi as respostas (grifos meus):

“E não garantir que quem é rico o suficiente para ter carro vai ter onde estacionar de graça”

Quem é rico o suficiente não vai se importar de pagar 5 reais. Mas nem todo mundo é rico o suficiente. Bem como o transporte público ainda não é bom o suficiente, logo, ainda não é correto forçar as pessoas a utilizarem um sistema precário. Que tal melhorar o transporte público primeiro, e deixar que as pessoas, com tal melhora, optem livremente por não ficarem presas em engarrafamentos? Acho que a situação prova que engarrafamentos conseguem serem melhores que os onibus e metrô lotados.

Desconfio que você tem é grana pra pagar os 5 reais, por isso quer o transito mais livre pra você. Ora, quem vai de metro ou bicicleta não tem que se preocupar com o transito, então você reclama do que?

Caro “catdevrandom”, em primeiro lugar não acredito que esse seja o seu nome! Em segundo, eu sou pobre e uso meu Monza 85 para ir ao Park Shopping todos os dias! Porque PRECISO! Estou aqui numa internet paga pelo meu cumpadre na nossa microempresa. Gostaria de dizer que a atitude dos Deputados Reguffe e Ulysses é digna e não beneficia só os ricos, afinal nós pobres também temos direito a ter carro! Eu tenho carro e é muito difícil mantê-lo! Pare de falar bobagem e aplauda aqueles que estão fazendo coisas em benefício da população em geral e não estão roubando como a maioria! Você é um blefe! Gostaria de saber o seu nome…

Os argumentos dos dois são bons, adoraria entrar em uma discussão legal que eu possa dizer para o primeiro rapaz o porquê de eu achar que primeiro devemos aumentar o custo do uso do carro, mesmo que a melhoria dos transportes ainda não esteja em pauta. Também adoraria falar ao segundo senhor que ter um carro que é difícil de manter não é uma boa opção para ele e pode estar deixando-o em dificuldades financeiras à toa, e ouvir seus motivos para manter seu Monza. Mas meus grifos mostram que talvez essas discussões não seriam nada legais ou agradáveis. O primeiro faz pre-julgamentos sobre minha classe social (ele acertou) e meus motivos (ele errou), desqualificando minha contribuição. O segundo também desqualifica minha contribuição, já que não bate com a ideia de mundo dele, dizendo que são bobagens. Também diz que "sou um blefe" porque não digo meu nome. Ora, já estou na internet há muito tempo para saber que colocar meu nome completo em qualquer lugar é até perigoso. Não me escondo atrás do anonimato; me protejo usando um pseudônimo (um dia ainda vou escrever sobre isso...). É diferente. O comentário estava linkado para este blog, e por aqui ele pode me mandar um email se quiser.

Veja a diferença em relação a este outro comentário, também sobre o mesmo tema do ParkShopping:

Pelos comentários posso concluir, como leitor asíduo do blog, que muitas pessoas comentam simplesmente por comentar, ser ter lido suficientemente ou se informado o bastante, e isso só demonstra a ignorância em que vive a maioria das pessoas que se dizem informadas.

Creio que a iniciativa dos parlamentares é válida pois o que está em questão não é se o consumidor deste serviço é rico ou não, mas sim a legalidade (ou moralidade) da cobrança. Por isso acredito que os deputados estão sendo felizes nesta fiscalização, sendo esta atitude uma das obrigações de um parlamentar, algo que muito poucos na Câmara Legislativa o faz e, quando faz, o faz sem muitos critérios, ao contrário dos referidos deputados.

Bom seria se mais deputados encampassem mais setores para fiscalizar, seja dos consumidores ricos ou pobres.

Muito melhor, né? Ele discordou de mim de maneira elegante e me fez pensar melhor sobre a atitude dos deputados. Concordo com ele que seria ainda melhor se os deputados se empenhassem também em outros setores, o que não invalida a atuação que fizeram nesse caso em especial.

Abaixo, uma lista com outros exemplos de intolerância em comentários, mas muito mais extremos. Desta vez, o tema foi a ocupação da FUNAI em Brasília (que, claro, o Correio Braziliense chamou de invasão), pedindo a demarcação das terras do Santuário dos Pajés no local onde querem construir o Setor Noroeste:

É muita falta do que fazer a ação desses manifestantes... com relação aos indíos querer ficar no setor Noroeste não merece nenhum comentário, pois parece brincadeira.

Brasília virou terra sem lei, que até os índios aderiram ao movimento dos invasores de terras públicas. Afinal, aqueles índios que vivem da pesca, tomam banho de rio é coisa do passado. Agora eles são investidores do Setor Noroeste, só estão querendo um pedaço do bolo. Se uns podem... eles também...

Com índio ou sem índio, esse Setor Noroeste é a maior tragédia que Brasília está por assistir. Além disso, avisa a essas bestas que invadiram o lugar errado. O problema não é com a Funai.

São esses playboysinhos da unb revoltados sem causa! É só darem um saco de roupa suja pra eles lavarem e encherem a cabeça com alguma coisa útil.

Mais um motivo para os estudantes se despirem e ficarem peladões.Esses caras não querem nada na vida. Enquanto isso os filhos dos menos abastados que gostaria de estar estudando na UnB, não podem. Os filhinhos de papai não querem nada, só bagunçar, não importa a causa, peia nesses folgados.

Onde estava a PF para retirar esses vagabundos à força da sede da Funai, não existe movimento nenhum, mas uma turma de arruaceiros. É fácil, manda esses falsos índios para outro estado, na amazônia tem terra sobrando para eles.

É isso, mesmo, é pura falta do que fazer por parte desses estudantes, já fui universitário e tive alguns contatos com esse povo, são pessoas que não querem estudar e ficam anos a fio na universidade ocupando vaga de outro. De politizados não tem nada.

Isso não é apenas no Brasil, claro. Sites estrangeiros também ficam cheios de comentários do tipo. Sim, até na Finlândia. Mas a impressão que tenho é que no Brasil é uma reação muito mais comum.

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OFF

Beyond Polar Bears - 21 outubro, 2009 - 11:39
This blog has been temporarily "turned off".
It will still be here, but i don't think there will be any posts for now.

You can follow me on www.leonafinlandia.blogspot.com mainly in Brazilian Portuguese, sometimes in Finnish and English as well.
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So long, short summer

Beyond Polar Bears - 29 agosto, 2009 - 21:03
Things you notice when you are hanging quietly in a summer cottage in the middle of the woods by a lake in the surroundings of Lahti:

Butterfly: Sleep well, sweet.
Flower: See you next summer!

Things you hear from the nature when the mosquitoes and flies and the other boring bugs have given you a break while you are in a summer cottage in the middle of the woods...
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Finnish gateway to Africa

Beyond Polar Bears - 19 agosto, 2009 - 14:45
by Léo

"I have no clue", I replied.

Not once. The same answer came every time my Wife (or anybody else) asked me about my African roots. Back home, we never really think of it, but here in Finland the issue is somewhat closer to me than ever before.

"Hi", he said and smiled while we shook hands in the first time I entered the main building of the University of Tampere. I don't know how or why, but when I introduced myself as Brazilian I noticed him looking doubtfully at me with the corner of his eyes soon before they blinked as if the flash of a camera had brought him back from his probable imaginary scenario. "I am Nigerian", he said. The talk went on and faded as well as his initial excitement.

The only thing about my past I know is that the parents of my paternal grandparents were children of African slaves. Here in Finland - and I suppose in other Western European countries as well - it is common to trace the family tree back to centuries ago. In my case, the search would probably end in some 19th century trader book. I am not sure, though. Maybe because I never tried. I had been interested, but I never really did anything to find out where my family came from.

"Hey, brother!" At first it took me time to realize the black guy in the gift store at the center of Lahti was talking to me. "Hello!", he came and we shook hands. "It is nice to meet you", he continued before letting it slip through his barely open mouth: "There doesn't seem to be so many of us coloured people here." He smiled. I nodded timidly and introduced myself. "Oh....you are Brazilian...." he sighed trying to hide his disappointed look. We talked briefly about the length of our stay, he told me he had just arrived from Nigeria to be with his Finnish girl. After that, I never saw him again.

It is funny, if you stop and think about it. In Brazil, my friends and I barely talked seriously about Africa. I mean, we are Brazilians. Africa, according to the news, is the poor continent with very skillful and not very tactical football players. Since most of us did not use to have BBC, DW or other international channels, we rarely heard anything about the land of our ancestors that differed from poverty, ebola, dictatorships, apartheid, that stuff. Brazil culture is deeply rooted in African cults and music, we are geographical regions pretty much tied to one another by the chains that locked the slaves and dragged them accross the Atlantic Ocean to the largest Portuguese colony. Still, if any of my black friends and I were asked, we would certainly not manage to name more than 5 African countries. Let alone know where our family trees had roots in.

"Excuse me, where are you from?", the middle-aged Finnish man in Nastola asked me while we were watching the historical match between the low-division local team and MyPa, one of the Veikkausliiga ("premier league") teams in Finland. I could tell he was pretty interested in me, which scared me certainly. It is not so common that Finns go starting conversations with strangers in public places like that. I timidly introduced myself. "Where are you from?", he asked. "Brazil!?! I thought you were from Nigeria or some other West-Coast African country..." He said half surprised, half apologizing. When he was about to turn around, I started talking and soon I discovered that he had been there for missionary reasons and was wondering if I knew how to play some Nigerian percussion instrument. And there I was, talking about Africa with a Finn as I had never talked with any of my African-descendent friends. Game over, we left.

"I have no clue", I would say now if my Wife or any other person asked me about my roots in Africa. However, it took me almost thirty years until I came to Finland to realize that it is important that I know where I came from. I need to know because it is a bit embarrassing that I cannot explain to people the reasons for me to be black in Brazil, you know what I mean? I got so used to answering "My grandparents were kids of slaves" and people getting convinced of that. It was in Finland that challenging complements like "Really? From which part of Africa?", or "I have been to Mozambique/Nigeria/Ruanda/Luanda/Mali/etc. Where were the Brazilian slaves from?" started popping up. It was here that I started to think of Africa as the complex and diverse continent it actually is, that Africans from the East can be very much different from the Western ones.

Finland became my eye-opener to look at my past as part of my personal life and not only as a faraway story from the history books of the school times. It is here that I was seen as a Western African "brother" for the first time in my life.

It felt good.
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